A Mensagem e Os Lusíadas

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Camões e Pessoa

Se lermos Os Lusíadas e a Mensagem com atenção, não nos é difícil notar imediatamente a entre os dois poemas épicos.
Poderíamos comprovar este fenómeno por meio de uma breve referência ao do «Gigante Adamastor» de Os Lusíadas e ao «Mostrengo» da Mensagem. Mas como esse tema tem sido tratado por críticos competentíssimos, vejamos, à guisa de exemplo, a epígrafe geral da Mensagem e o primeiro verso de Os Lusíadas. Numa e noutra obra temos o sinal distintivo e indelével gravado na fronte dos e do poeta e dos portugueses: «As armas e os barões assinalados» e «Benedictus Dominus noster qui dedit nobis signum» (Bendito seja Deus Nosso Senhor que nos deu o sinal). Em Os Lusíadas os portugueses vão assinalados com um sinal muito especial: o de heróis escolhidos pelo para realizarem uma empresa de carácter transcendente e . E pelo que se refere à Mensagem, no poeta, feito e interlocutor de um povo, o Senhor dá aos portugueses um sinal que os distingue e os marca também para uma obra sobre-humana e esotereológica.
Porém a Mensagem comparada com Os Lusíadas, é um passo em frente. Enquanto Camões em Os Lusíadas conseguiu fazer a síntese entre o mundo e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe, estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo , entendendo por mundo esotérico aquele que vai da teosofia à alquimia e da maçonaria ao rosacruzianismo, passando por todas as de carácter iniciático e, portanto, secreto. Num poema como «Viriato», por exemplo, vão de mãos dadas o e o pitagorismo, o budismo e o hinduísmo, traduzidos, respectivamente, pela ressurreição e pela ou metempsicose.
Por outro lado, enquanto Os Lusíadas é essencialmente o poema da celebração do , a Mensagem é sobretudo o poema da glorificação do ; enquanto em Os Lusíadas se aponta muito timidamente para uma visão messiânica de Portugal, no passado, na Mensagem faz-se do messianismo a mola-real de Portugal, no futuro, podendo dizer-se que, no fundo, o que se propõe na Mensagem é o regresso à do Ouro.

António Cirurgião, O Olhar Esfíngico de Fernando Pessoa